Apologia da sem-vergonhice

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A vergonha pode surgir como um peso que nos faz acreditar que há algo irremediavelmente errado conosco. No filme *Mais Forte do que Eu*, um jovem com síndrome de Tourette sofre por atitudes involuntárias que ferem as pessoas e o deixam cada vez mais isolado. Sua vida começa a mudar quando uma mulher o acolhe sem reduzi-lo aos seus impulsos e limitações. Esse amor paciente devolve-lhe a coragem de sair do esconderijo, trabalhar, construir uma nova história e descobrir que sua identidade era muito maior do que aquilo que lhe causava humilhação.

Existe uma diferença decisiva entre reconhecer a culpa e viver dominado pela vergonha. A culpa diz: “Eu fiz algo errado e preciso reparar”; a vergonha afirma: “Eu sou uma pessoa ruim e não tenho solução”. A primeira pode conduzir ao arrependimento, ao pedido de perdão e à conversão. A segunda paralisa, alimenta a ansiedade e empurra para a fuga. Desde Adão, que se escondeu de Deus depois do pecado, o ser humano tenta escapar da luz, transferir responsabilidades e evitar a verdade. Mas Deus não pergunta “Onde estás?” para condenar. Ele nos procura porque deseja salvar, curar e reconstruir.

Confessar um erro é romper o silêncio que mantém a alma aprisionada. Como a criança que roubou um cartão-postal e passou a viagem inteira imaginando que seria descoberta, podemos transformar uma falha em uma sentença contra nós mesmos. Quando o pecado é levado à luz, porém, começamos a enxergá-lo com distância: aquilo foi cometido por mim, mas não é toda a minha identidade. Até os fracassos cotidianos, como uma gravação que dá errado repetidas vezes, podem ensinar que a próxima escolha é mais importante do que o erro anterior. Como dizia Miles Davis, somente a nota seguinte revelará o verdadeiro sentido da nota que parecia errada.

O cristianismo anuncia um profundo otimismo sobre a pessoa humana. Não somos definidos pelos pecados, pelas quedas, pelo corpo, pelas limitações ou pelos momentos constrangedores. Somos filhos de Deus, chamados à santidade e destinados à glória. Cristo suportou a Cruz, desprezou a vergonha e abriu os braços para nos salvar. Por isso, a resposta não é fugir, abandonar a oração ou esconder-se de Deus, mas fixar os olhos em Jesus, buscar a confissão e recomeçar. Com a ajuda de Nossa Senhora, podemos abandonar a identidade que a vergonha tenta impor e caminhar com esperança para a vida plena que Deus preparou para nós.

**???? Referências citadas:**

* Curso sobre psicologia da personalidade: “Why you are who you are: Investigations into human personality”, Mark Leary (estou escutando na Audible):
https://shop.thegreatcourses.com/why-you-are-who-you-are-investigations-into-human-personality

* Entrevista com autor de livro sobre a vergonha:
https://www.artofmanliness.com/character/self-improvement/shame/

* Filmes citados: “Mais forte do que eu”, “Divertida mente 2”
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